May
18
2013

ZEIS: Efeitos Frontais e Colaterais

As zonas especiais de interesse social (ZEIS) foram criadas como um instrumento contra a exclusão social. Estão contempladas no Estatuto da Cidade e em vários planos diretores como o do município de São Paulo de 2002. Terrenos considerados como ZEIS são áreas onde somente  poderão ser construídas  moradias populares em suas varias formas. Constituem trincheiras  contra a exclusão porque nessas áreas o maior e melhor  uso dos terrenos se reduz  à construção de casas populares. O preço do m2 correspondente  a este tipo uso é (na verdade, seria como explicaremos adiante) muito menor  do que se a alternativa fosse  construir um hotel de 7 estrelas.

No interior dos perímetros das operações urbanas  existentes em S. Paulo os moradores de áreas de ZEIS – em geral favelas – recebem outro reforço em suas linhas de defesa: os recursos oriundos da outorga onerosa (captura de mais valias em seu perímetro pela venda de Cepacs p.ex.)  devem ser também utilizados na urbanização dessas comunidades.

Foi esta dupla condição que permitiu a urbanização da favela Jardim Edith na operação urbana água espraiada. Esta ex-favela, aliás, está localizada bem perto da ponte estaiada do Rio Pinheiros e esquina com a av. Luis Carlos Berrini, áreas das  mais caras da cidade de São Paulo.

É verdade que a comunidade organizada da favela jogou um papel decisivo neste desenlace positivo do ponto de vista da inclusão social. Quando a ponte estaiada foi inaugurada o então prefeito Kassab tentou tirar a favela de lá (“limpar” foi o termo utilizado por alguns) para que as fotos da ponte saíssem  “imaculadas”. A comunidade organizada resistiu e fez valer seus direitos de ali permanecer  recebendo os recursos da venda de Cepacs previamente destinados à sua urbanização. Aliás, a venda dos primeiros Cepacs naquela OU deviam ser utilizados na construção da ponte (custo de R$ 180 milhões) e na urbanização da favela (custo de R$50 milhões). A ponte foi terminada e quando de sua inauguração  o processo de  urbanização da favela sequer havia começado. Foi necessária a intervenção da defensoria publica para que um acordo fosse assinado com a Prefeitura e a combativa associação da comunidade. Agora (fev. 2013) a urbanização esta praticamente terminada  em projeto  que contempla alem de cerca de 247 apartamentos de 50 m2, uma creche, um posto de saúde, alem de uma escola de gastronomia.

Mesmo com muita gente jogando contra, a urbanização da favela contou com algumas condições favoráveis: a existência de ZEIS, a existência de uma operação urbana  determinando que todas as favelas existentes em seu perímetro fossem urbanizadas dentro do perímetro, a existência de recursos financeiros oriundos da venda de Cepacs, para não falar da combativa resistência dos moradores cuja grande maioria se recusou a aceitar as pífias compensações oferecidas pela Prefeitura para que desocupassem a área.

O fato da favela ocupar um terreno público também facilitou o processo de urbanização. Este é um aspecto das ZEIS que devemos estudar cuidadosamente. Se o terreno é público é mais fácil destiná-lo à construção de moradias populares  e urbanizar uma favela. Se o terreno pertence a proprietários privados as coisas se complicam. Existem duas situações diferentes: a) ZEIS em terrenos privados vazios, isto é, sem ocupação  e, b) ocupados por favelas.

Vejamos o que pode acontecer com os primeiros. Os proprietários associados ou não com um empreendedor imobiliário podem construir habitações de interesse social em seus terrenos não ocupados  e vende-las com lucro. É o que aconteceu com terrenos ZEIS próximos á futura av. Jose Lorenzon no interior da  OU Água Branca.

Mas, os proprietários privados de terrenos ZEIS não ocupados por favelas podem colocá-los na “engorda”. Especialmente se os terrenos forem bem localizados. Podem esperar até que um governo premido pela necessidade de construir moradias populares os desaproprie. Nesse caso a questão mais importante é o preço do terreno sentenciado pelos juízes na desapropriação: se  o preço de mercado corrente, ou o preço de terra classificada como ZEIS?

Existem alguns indícios de que os preços calculados nas indenizações tem sido os de mercado. Alem disso, não existe um mercado de terras ZEIS cujo preço pudesse servir de referencia.  Esta pratica destrói em grande medida a eficácia do instrumento como barateador de áreas bem localizadas onde famílias de baixa renda possam  reproduzir sua vida social sem as gigantescas dificuldades que enfrentam vivendo na periferia. Se a desapropriação exige um preço tão elevado a pergunta é: de onde sairá o dinheiro para pagá-la? Obviamente o poder publico não dispõe destes recursos. Nem as vultosas somas arrecadadas com a venda de Cepacs na OU Faria Lima e Água Espraiada seriam suficientes. O instrumento perderia, portanto grande parte de sua eficácia.

Nas áreas ZEIS de propriedade privada e ocupadas por favelas praticamente não existe a opção do proprietário e ou empreendedor imobiliário de construir habitações de interesse social. A intervenção governamental é inevitável o que significa além da desapropriação do terreno, remoção provisória das famílias em programas de aluguel social enquanto se urbaniza a área etc.

Este parece ser o caso da favela  Coliseu-Funchal no interior da OU Faria Lima localizada em terreno privado  e a  espera de urbanização há mais de 10 anos. É interessante que esta favela esta “cercada” por edifícios triplo A como o E-Tower, o centro empresarial Millenium e a impoluta ex-Daslu. A favela também contava com um campo de futebol onde todo fim de semana eram realizados jogos com outras comunidades. Mas  não sendo um terreno de ZEIS, o campo foi requisitado pelo proprietário e ali construída uma grande torre de espaços comerciais e de serviços de alto padrão completando o cerco á favela.

O Plano Diretor de São Paulo (2002) estabeleceu mais de 900 áreas de ZEIS ocupando um total de cerca de 32 km2. Seria importante estabelecer quais destas áreas são publicas e quais pertencem ao setor privado. Entre as que se encontram em terrenos privados quais as que estão ocupadas por favelas e quais se encontram em terrenos vazios. E nos casos de decisões judiciais de desapropriação quais os preços pagos aos proprietários. Seria importante também uma campanha de esclarecimento aos juízes sobre os diferenciais de preços entre terrenos classificados como ZEIS e os demais. Seria importante também estabelecer uma política de incentivos econômicos e financeiros aos proprietários privados dessas áreas que estivessem dispostos a construir moradias populares. Ao mesmo tempo seria conveniente  declarar estas áreas como passíveis de edificação compulsória reduzindo a margem de manobra daqueles que permanecem à espera de uma indenização generosa, furtando-se a dar á propriedade territorial urbana sua função social como determina a Constituição Federal de 1988.

Apr
02
2013

Pib e Inflacão: boas e más notícias

Cenário: Rio de Janeiro, anos 60, Forte de Copacabana. Nosso comandante, um tenente coronel era amado pela tropa. Só dava notícias boas. O sub-comandante, um major, era odiado: chegava dizendo que tinha duas notícias para dar. Ambas ruins. E perguntava qual nós preferíamos primeiro…

Todos sabemos quem é quem no Planalto em matéria de notícias. As más cabem à sofrida diretora da Petrobras (reajuste dos combustíveis), ao esforçado ministro da Fazenda (PIB raquítico), ou ao discreto presidente do Banco Central (inflação mais elevada). As boas…

O governo enfrenta duas batalhas: a do crescimento e a da inflação. A primeira, no atual mandato, parece perdida. Para cumprir a “meta” prometida de crescimento de 4,5% como media anual teríamos que crescer 7,2% em 2013 e repetir a dose no ano seguinte. Não vai dar.

Resta a segunda, que esta sendo enfrentada com estratégias de segurar preços que já se mostraram fracassadas no passado. Conter a inflação desta forma foi tentado na primeira metade dos anos 80. As estatais foram as vítimas. O resultado: sucateamento e a inevitável privatização das mesmas em condições lesivas aos cofres públicos. Os Planos de estabilização Cruzado, Bresser, Verão e Collor também com distintos graus de esquizofrenia,  tentaram controlar os preços – congelando-os – e também fracassaram. O Plano Real funcionou porque evitou este caminho. Houve tempo e sensatez para  a introdução da URV e a transição da moeda ruim para a boa ocorreu sem traumas, embora o Plano tenha sido beneficiado pela renegociação da dívida externa ( Plano Brady) e a taxa de cambio valorizada não conspirou contra a estabilização como nos planos anteriores.

A novidade agora é reduzir preços ou impedir que subam mais intensamente cortando impostos. Mas esta medida, que pode ser ganha-ganha, não tem funcionado nos últimos tempos. O ganha-ganha só acontece se a produção se expandir e a base sobre a qual os impostos incidem crescer, aumentando ao invés de reduzir a arrecadação final,. O raquitismo do PIB provocando entre outras uma forte queda nos lucros, desinfla a  arrecadação como já aconteceu em fev. 2013. Se alguns  preços caem devido a estas isenções e não hà um aumento da oferta interna ou da produtividade, ocorre um aumento inevitável das importa coes prejudicando a industria nacional. Para os investidores na industria outra questão se impõem: que acontecera quando as isenções forem eliminadas? Ou ficarão para sempre como parece ser o caso das montadoras. A incerteza é má conselheira para os investimentos.

Por outro lado, o teto da meta já teria sido ultrapassado não fossem  estas isenções de impostos e recalculo das tarifas de energia. Aliás em relação a estas ultimas devemos lembrar que se os preços caem a demanda costuma aumentar. Ora nossa energia elétrica é  baseada no regime de chuvas e os reservatórios estão 40% abaixo do nível que assegura, sem sobressaltos, o abastecimento no período de seca. Duas coisas podem resultar dos caprichos de S. Pedro: acionamento intenso das termoelétricas – energia mais cara, e para que os preços não subam o único caminho é o subsídio – ou, no caso extremo, a volta do racionamento em 2014. Mas 2014 é o ano da Copa. Bem, não pensemos nisso agora que pode prejudicar nossa Seleção…

Alem disso, a redução de impostos federais reduz o bolo tributário a ser repartido entre  estados e municípios. As finanças  destes já andam ameaçadas pelo retardamento dos reajustes de tarifas dos transportes  públicos. Os Prefeitos recém empossados já começam a renegociar antigos contratos pretendendo abatimentos prejudicando a qualidade  dos serviços e pelo andar da carroça – especialmente o de São Paulo – não terão recursos para cumprir nem metade do que prometeram em campanha.

Voltando à questão do crescimento, a política que vem sendo posta em pratica produz um efeito estranho nas laminas da tesoura ( o investimento e o consumo) que determinam a expansão do PIB. Só esta ultima cresce. Fazendo uma comparação com uma batalha, se um exercito de 30.000 aniquila um de 20.000 mas para tanto perde 25.000 de seus combatentes, podemos dizer que venceu? Bem generais vitoriosos não costumam contar seus mortos: se esta política é ganhadora em termos de urnas ( eleitorais e não mortuárias) como as pesquisas de intenção de voto mostram, a batalha estará ganha. É uma forma de ver a questão, a de quem só pensa no curto prazo. Mas, é a preferencial de quem esta no Planalto. Resta perguntar por quanto tempo durará a guerra.

Mar
06
2013

As Eleições de 2014 e a Retomada do Crescimento

Um ministro da Fazenda tem a obrigação de ser otimista. Existem exceções, é certo. As profundas olheiras do ex-ministro Mario Henrique Simonsen (1975-1979) não tornariam crível qualquer euforia quanto ao futuro da nossa economia. Em suma, previsões ministeriais devem ser mais coloridas do que o preto e branco da realidade. Imaginem se o Ministro Guido Mantega tivesse dito no início de 2012 que o Pib daquele ano, ao invés de 4,0 seria em torno de 1,0%. Teria acertado? Creio que não, pois esta simples declaração certamente influiria negativamente no animo dos agentes e o resultado talvez fosse muito pior.

Nosso desempenho em 2012 foi muito ruim. Um Pib de 0,9% não é número que se apresente. O primeiro biênio do atual mandato presidencial, aliás, foi o pior dos últimos 20 anos. Ficamos atras de países como os Estados Unidos, e a Venezuela, e emparelhamos com a Alemanha.

O ministro Mantega atribuiu nosso fraco desempenho à crise internacional. Creio que em parte tem razão embora ele mesmo tenha afirmado anteriormente que a crise não nos afetaria. Aliás, o ministro Mantega está se especializando na técnica do “elevar a menos um”, ou seja, acontece exatamente o contrário do que ele prevê.

Na verdade, esta crise provocou também uma retração considerável na China cujo Pib de 2012 caiu abaixo dos 8,0%. E a China é o benchmark, a referencia.

O Tiranossauro asiático ( estaria voltando a ser tigre?), muito dependente de seu comércio exterior, também sofreu os efeitos da crise mundial especialmente da Europa, agora seu principal cliente ultrapassando os Estados Unidos. O efeito cascata reverberou em nossas exportações de commodities. Os preços caíram e somado à queda das exportações de manufaturados nosso superavit comercial em 2012 não alcançou 20 bilhões. Em 2007 chegou a ser superior a 45 bilhões de dólares.

Mas o problema central esta nos produtos da industria, tanto os exportados como os destinados ao mercado interno. A China, hoje nosso principal parceiro comercial, vem gozando nas ultimas décadas de vantagens competitivas no comercio internacional que formam um verdadeiro tripé: grande escala de produção, salários baixos e cambio desvalorizado. O resultado mais visível no Brasil é a invasão direta ou indireta de produtos chineses no nosso mercado interno. A indireta fica por conta da triangulação: o produto é chines, mas quem aparece exportando é o Vietnã entre outros. Além disso os diferenciais de produtividade estão sendo reduzidos inclusive em relação aos países desenvolvidos e dessa forma produtos manufaturados chineses tornam-se quase imbatíveis. Eu disse quase, pois muita coisa pode ser feita para neutralizar pelos menos duas destas vantagens, mas fica para uma outra ocasião.

No nosso caso há um agravante: o real está valorizado.

Não é de estranhar que a indústria brasileira apresente resultados negativos. Além de perdermos mercados externos, (entre 2005 e 2011 nossa participação na exportação mundial de manufaturados caiu de 0,85% para 0,73%), o mercado interno também vem sendo arrebatado pelos made in China, e até pelos Estados Unidos cujas exportações estão sendo ajudadas pela desvalorização do dólar.

As vantagens de termos um mercado interno em expansão alavancado pelo consumo e o emprego estão estimulando as importações e não necessariamente a industria nacional. A demanda do que não pode ser importado, os chamados “non tradables”, – a maior parte dos serviços – faz com que a pressão sobre a oferta (mesmo com um Pib raquítico) jogue os preços para cima e tenhamos uma inflação colada no teto da meta isto é entre 6,0 e 6,5% ao ano. Não fossem os malabarismos perigosos de segurar alguns preços (como o dos combustíveis por exemplo) e reduzir outros concedendo isenções de impostos, a inflação de 2012 teria perfurado o teto da meta de inflação.

Em 2013 o pib poderá ser salvo de outro naufrágio pelo desempenho melhor do setor agrícola. Mas, do setor industrial não poderemos esperar grande coisa. A taxa de cambio valorizada e a de juros ainda muito elevados não garantem a confiança dos investidores em projetos de médio e longo prazo. A doce maldição é que este “modelo” proporciona bons dividendos eleitorais. Se o nível de emprego e os salários se mantiverem elevados, nenhum assalariado (eleitor) “sentirá” um Pib de 0,9%. Como a corrida eleitoral de 2014 já se iniciou, a aposta do governo nesta política econômica provavelmente permanecerá. Creio que será possível segurar a situação até a Copa do Mundo e depois empurrar um pouco mais com a barriga até outubro e tentar vencer as eleições. Já vimos este filme nos períodos de FHC: o que tinha de ser feito de amargo no primeiro mandato foi deixado ( em nome da reeleição) para o segundo, com os péssimos resultados conhecidos. A caixa de ferramentas das maldades (elevação dos juros, queda do nível de emprego e renda, combate consistente à inflação, eliminação dos subsídios tributários) será aberta depois, em um eventual segundo mandato. Ou no primeiro de um outro candidato se a atual presidente não for reeleita. Em time que esta ganhando não se mexe, dizem. Mesmo que até o técnico não passe em teste de doping e o resultado do jogo possa ser invalidado no futuro.

Jan
16
2013

Um Pibãozinho em 2013 ?

Parodiando o que teria dito um controvertido ex-ministro da fazenda, a atual política econômica “se perde em visão cosmogônica, ganha em efeitos pirotécnicos”.

De fato, ações pontuais em profusão vão avançando e a visão de conjunto se esvai provocando incertezas e distorções, especialmente nos investidores privados. Os rojões num estádio animam e entusiasmam os torcedores – no caso os consumidores – mas a fumaça produzida pela pirotecnia, impede que os jogadores vejam onde esta a bola e o juiz tem que interromper a partida esperando que o nevoeiro se dissipe.

Retirar impostos de automóveis e outros bens agrada o consumidor. As montadoras expandem a produção ocupando a capacidade ociosa mas aguardam o fim do benefício pois sabem que não é para sempre. Que acontecerá então? Ou será que outros serão criados? O consumo se excita, mas o investimento não sai da toca. Para dar uma ideia do desequilíbrio entre estas lâminas da tesoura do crescimento ( uma maior que a outra) basta registrar que em 2012 as montadoras venderam mais automóveis, mas produziram um numero menor de veículos em comparação com 2011. Esta aparente contradição se explica: venderam mais carros – consumo – e menos caminhões e ônibus – investimento.

O governo não pode perpetuar a isenção de tributos, pois sua arrecadação esta em perigo. No final de 2012 para cumprir a meta do superávit primário foi obrigado a um malabarismo contábil que espremeu contra a parede a Caixa Econômica o BNDES e o fundo soberano. Para quê? Em busca de receita extra para cumprir a meta do superávit primário. A desconfiança se alastra. A credibilidade das contas públicas e a suspeita que a verdadeira inflação esta sendo escondida ( ao estilo Kirchner) se esparrama entre os investidores.

O torniquete na Petrobras que bloqueia o reajuste do preço dos combustíveis ajuda a segurar a inflação. Consumidores gostam, mas a receita da Petrobras definha. Esta demora paralisa e retarda investimentos indispensáveis na produção de petróleo. É provável que, como em outras ocasiões, o governo aguarde para dar a má notícia do reajuste dos combustíveis – cujo efeito imediato sobre os fretes e o transporte coletivo pressionará a inflação – com a redução das tarifas de energia elétrica prometida desde setembro do ano passado. Mas, a estiagem obrigando o governo a acionar as termoelétricas ao limite pode neutralizar em parte esta redução de tarifas, pois o KW parido pelo óleo combustível ou o carvão é mais caro do que o da água movendo turbinas. A ameaça, embora ainda distante de um novo apagão já começa a preocupar: em 2001 o racionamento provocou uma queda de 1,5 pontos percentuais no Pibinho daquele ano. Energia elétrica barata, abundante e garantida é essencial para dissipar a fumaça e deixar o horizonte claro para os investidores.

O cambio valorizado também faz estragos na balança comercial reduzindo o superávit para o menor nível em 10 anos. Além disso, apresenta um dilema shakespeariano: se o real for desvalorizado – o que é essencial para a retomada das exportações de manufaturados e estímulo à indústria – a inflação fura o teto da meta. Se não for os salários crescendo mais do que a inflação e a produtividade recortam os lucros. Para recuperá-los os empresários repassam aos preços – especialmente daquilo que não pode ser importado como a maioria dos serviços – e a inflação continuará sofrendo perigosas pressões.

A situação internacional também não ajuda. Quando a maré baixa os que estão pelados tem que proteger sua nudez mas isto contraria os vigilantes da OMC. Para alguns a solução é ir mais para o fundo, mas correm o risco de morrer afogados. É o caso da nossa indústria. Sofrendo o “bullying” cambial perde terreno para os made in China. O consumo interno começa a ratear com a inadimplência. A galera da classe D que se moveu para a classe C, sem poder assumir novos crediários e em dificuldades para pagar os já contraídos, ameaça voltar ao nível anterior. Mas, enquanto o emprego, os salários e a renda estiverem em elevação o prestígio do governo se manterá. É possível manter este estado de coisas até 2014 enganchando com a Copa e as eleições?. Talvez o combustível seja suficiente para obter um segundo mandato. Depois, é preparar-se para pagar a conta. Já vimos algo semelhante acontecer durante o período FHC.

Ah! Já ia me esquecendo de 2013! Em 2012 tivemos um Pibinho. Para 2013 o governo promete um Pibão. Mas parece que estamos indo mais para o inho do que para o ão.

Nov
27
2012

2013 – Crescimento ou Estagnação?

2013 – Crescimento ou Estagnação?   (nov. 2012)

Uma decolagem perfeita nada garante se o piloto não souber onde pousar.

Na dúvida, melhor não decolar. Na incerteza, melhor não investir. Sabemos que a produção e seus desdobramentos – salários, lucros, rendas – depende do binômio consumo e investimento. Mesmo que o consumo esteja bombando, um horizonte vacilante não faz o investimento sair do casulo. Se uma das laminas estiver cega a tesoura não corta.  A pergunta então é: porque com tantos estímulos ao consumo – redução de impostos, baixa nos juros, represamento de preços (combustíveis p.ex.) os investimentos não crescem?

Vários fatores conspiram contra essa esperada retomada. A crise internacional contraindo a demanda na Europa, na Ásia e também nos Estados Unidos acirra a concorrência e torna mais difíceis nossas exportações, especialmente de manufaturados. Uma taxa de cambio ainda valorizada completa o desalento e a indústria encolhe. A expansão da demanda interna alavancada pelo crescimento da renda nos últimos anos provoca elevação de preços do que não pode ser importado: a maioria  dos serviços. Não dá, por exemplo, para cortar o cabelo em Londres. Só os mais riquinhos… A quebra de safras nos Estados Unidos eleva os preços de alguns alimentos. Diante destas pressões inflacionárias que ameaçam estourar a meta o governo adota uma política perigosa: solta a tartaruga e segura a gazela. Ou seja, segura alguns preços como o dos combustíveis – penalizando a capacidade de investimento da Petrobrás – reduz os impostos sobre bens de consumo encolhendo seus preços. Claro, em ano de eleição a caixa de ferramentas das bondades é escancarada, mas não se pode fazer isto o tempo todo. Os investidores sabem disso. Sabem que as pressões inflacionárias estão sendo contidas artificialmente. E se não puderem mais ser represadas a taxa de juros voltará a subir. Ou seja, embora necessária para evitar o pior, esta política não é sustentável no médio prazo. A ofensiva para baratear a energia elétrica para empresas e consumidores, desonerando as tarifas de taxas e depreciações já terminadas pode afetar os novos investimentos. Várias empresas do setor estão tirando o corpo fora depois do anuncio das novas regras.

Como é de ofício, o governo promete um crescimento do PIB de 4% ou 4,5% em 2013. Já assistimos a estas declarações pirotécnicas em anos anteriores. Este crescimento dependerá da expansão dos investimentos que as condições externas não ajudam e as internas em certa medida atrapalham. Aliás, especialmente na Europa o ranger de dentes da população castigada pelo desemprego e perda de direitos já se transforma em confrontos nas ruas. A última coisa que esta situação inspira é otimismo. Em matéria de crescimento do Pib, o primeiro biênio do atual mandato presidencial é um dos piores das ultimas décadas. Diante das circunstancias, 2013 parece inclinar-se mais para repetir o raquítico desempenho de 2012 do que para um crescimento robusto da produção.

Sep
25
2012

Dominágoras

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Jun
12
2012

A Dívida, a tatuagem e o Pib em queda no Brasil

A tatuagem dura mais que o amor, assim como as dívidas sobrevivem à ossada de um carro usado. Resultado: a explosão da inadimplência. No primeiro semestre  de 2012  os atrasos aumentaram mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado.  É a ressaca da farra dos crediários a partir de 2009, que embora tenha compensado os efeitos da crise internacional, não foi acompanhada pelo aumento dos investimentos, sem os quais a expansão sustentável da economia fica comprometida. A queda da Selic ajuda.  Mas, contribui mais para reduzir o custo da dívida pública e para alegrar os exportadores com a valorização do dólar do que para estimular o investimento. Especialmente entre aqueles de fora do círculo dos amigos do BNDES que enfrentam taxas de juros escorchantes dos Bancos em geral.

A expansão de nossa economia se apóia em mesa de três pernas: o consumo interno, o externo (exportações) e os investimentos (internos e externos). São pernas siamesas e até certo ponto interdependentes. O consumo interno pode ser estimulado baixando os preços via queda de impostos o que tem sido feito com sucesso depois de 2008. O aumento da renda dos mais pobres também ajuda. Mas a dinâmica expansionista do emprego e da renda dá sinais de fadiga.  O externo depende da expansão da Ásia, da China especialmente, da Europa, e dos Estados Unidos. Nesse quesito as coisas não vão bem. Os investimentos internos públicos estão em queda, e os privados dependem de financiamentos a juros civilizados: apesar do banho de loja que os bancos deram nas suas taxas premidos pelo “exemplo” do BB e da CEF, estas ainda são estratosféricas. Os investidores externos estão escaldados com a crise que se agrava na Europa – a Espanha cambaleia…- e procuram um lugar seguro para esperar a tempestade passar. No jargão financeiro dos anos 60, “vão dançar com a irmã…” e, o melhor salão para isso (ainda) são os títulos do Tesouro americano.

O investimento que leva o pomposo nome de formação bruta de capital fixo cai em 2012 em relação ao ano passado. As expectativas não são boas e a maioria dos empresários vive delas. Da mesa de três pernas, duas estão mancando: o investimento e as vendas externas (exportações). O Pib de 2012 será certamente menor do que o de 2011, que já foi ruim. Não seria de estranhar se ficar abaixo dos 2,0%. O crescimento tipo vôo de galinha esta de volta. Infelizmente com galinhas mais magras…

Jan
12
2012

A Crise na Europa e reflexos no Brasil

Cenário: julho de 1944, Bretton Woods, New Hampshire, Estados Unidos.  Alemanha e  Japão praticamente derrotados na II Guerra Mundial,  os Aliados se reuniram nesta aprazível localidade  para reorganizar o sistema monetário e financeiro internacional. Uma das preocupações de John Maynard Keynes, presidente da Conferência  era evitar que a crise de 1929 se repetisse. Propôs a formação de uma “Clearing Union”, isto é uma espécie de Câmara de Compensação para os pagamentos internacionais. Operaria com uma moeda, (o Bankor) ,  independente de qualquer governo para evitar abusos.  Embora complexo, o sistema era engenhoso e por meio de incentivos e castigos procurava evitar os déficits crônicos de um lado – que resultavam em dívidas impagáveis – e superávits perpétuos de outro, que conduziam inevitavelmente ao desequilíbrio e à crise.

Os americanos não aceitaram a proposta e impuseram o dólar como meio de pagamento internacional. Gozaram das delícias dos ganhos de senhoriagem, mas o endividamento descomunal  resultante desaguou no abandono do sistema em 1971. O dólar sofreu forte desvalorização provocando uma crise em todo o mundo.

Hoje os déficits crônicos se esparramam e as dívidas crescem como cogumelos na floresta: pessoas, empresas e governos compraram coisas pelas quais não podiam pagar. Quando não honram suas dívidas, as empresas literalmente quebram.  As vezes não convém que desapareçam e os governos concordam em resgatá-las do inferno. Mas, é necessário pactuar com o diabo aumentando suas já pesadas dívidas. Este poder de salvamento, no entanto, tem um limite. Uma vez ultrapassado  coloca o dilema: quem salva um governo atolado em dívidas e com déficits crescentes? A área do Euro, é a mais duramente atingida. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália ou beijaram a lona ou cambaleiam.  França e Alemanha ainda de pé impõem novas regras de austeridade para evitar que a pororoca se transforme em tsunami. A terapia é conhecida: corte nas despesas, queda dos investimentos, aumento do desemprego e dos impostos. Mas, estas medidas são recessivas. Agravam a crise fiscal e a recessão pode durar mais tempo do que o necessário. As condições sociais e políticas se deterioram. O ranger de dentes pode  transformar protestos em revoltas populares. Na Europa dois subprodutos nefastos ganham força: xenofobia  (os poucos empregos para os nacionais) e regimes políticos pouco inclinados às consultas populares, isto é, autoritários para segurar o carneiro quando a tosquia ultrapassa a pele e chega até os ossos.

Os reflexos no Brasil já se fazem sentir: aumento da inadimplência,  queda nos investimentos e um crescimento em 2011 inferior a 3%. Em 2012 o PIB pode ser ainda menor, tornando evidente que a expansão de 7,5% em 2010 não era sustentável.

Sep
09
2011

Paradoxo da Parcimônia

Dicionário de Economia do Século XXI.

A aparente contradição existente entre poupanças excessivas que -resultam em poupanças reais mais baixas, quando a economia está operando num ponto inferior ao do pleno emprego. Nessa circunstância, o excesso de poupança permanece fora da economia, causando uma queda na renda e na produção.

Ao contrário, se as poupanças forem gastas e canalizadas para a economia, o investimento e a riqueza real aumentarão. Este princípio, desenvolvido por J.M. Keynes, foi aplicado em primeiro lugar à economia norte-americana, deprimida durante os anos 30, com seu elevado grau de desemprego.

Se, no entanto, a economia se encontrasse em pleno emprego, o excesso de poupança poderia ser benéfico: a utilização dessa poupança geraria uma demanda extra que não encontraria resposta na produção, uma vez que a economia se encontraria em pleno emprego, provocando inflação. A renda nominal aumentaria, mas o mesmo não aconteceria com a renda real.

Mar
28
2011

Competir para Sobreviver

Um torrão de açúcar à direita, outro à esquerda. Neuroticamente eqüidistantes de um formigueiro, para que a escolha das formigas seja absolutamente aleatória. A primeira que chegar num deles enviará mensagens. Conhecido o caminho, as demais se encarregarão de devorá-lo. Só depois se dirigirão para o outro. Com os produtos as vezes acontece o mesmo.

A escolha inicial entre dois, muito parecidos, determina o futuro de ambos: um é disputado a tapas; o outro, embora tão bom quanto, mergulha no esquecimento. Uma vantagem inicial, obra do acaso ou da intenção, pode determinar o futuro numa luta competitiva.
Mas nem sempre isso ocorre. Fatores históricos, culturais, economicos, financeiros, militares, e a pirataria… interferem no mundo da competição e as vezes o melhor produto perde. Ou melhor, nem sempre o melhor permanece na dianteira.

Mas se tiver uma vantagem inicial, várias amarras podem ser criadas tornando-o hegemônico e sua presença no mercado, avassaladora. Por exemplo, a maioria dos teclados de máquinas de escrever ( e dos computadores) conservam até hoje a seqüência QWERTY ( cinco primeiras letras à esquerda na fileira de cima) .

Instalada nas primeiras e rudimentares máquinas tinha a missão de evitar que as letras se encavalassem para aumentar a velocidade de operação. Hoje este motivo desapareceu, e embora existam alternativas melhores quem iria propor a mudança de um “hábito” que já dura há mais de cem anos? Além disso, interesses dos que detém a patente, conspiram contra uma solução mais eficiente.

A disputa Windows x Linux reflete o mesmo processo.

Mas, a vitória numa competição comercial sempre se associou com os avanços na produtividade. E esta com a inovação e a criação de novos produtos. Tudo isso desaguando e tendo início no binômio ciência e tecnologia.

Que por sua vez são rios que se nutrem nas águas da educação.

Esta é a rainha no jogo de xadrez da competição. Os outros fatores são importantes mas sem a rainha, o jogador geralmente é obrigado a derrubar o rei. Países asiáticos, como o Japão, e a Coréia, no passado e no presente mostram que a formula funciona. Hoje a China e a Índia, dragões adormecidos, começam a soltar fumaça pelo nariz.

Com imensas populações e certas faixas de mais de 100 milhões com níveis de educação formal considerável, já disputam no mercado mundial em campos tão sofisticados como os da tecnologia da informação e a produção de softwares. Ah! Já ia me esquecendo: independencia política também ajuda e muito.

Pode ser o fiel da balança. Entre os BRIC’s ( Brasil, Rússia, Índia e China), a China é o país em melhores condições para “peitar” os Estados Unidos e a União Européia. Olho nela. E o Brasil einh?

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

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