jun 12 2012

A Dívida, a tatuagem e o Pib em queda no Brasil

A tatuagem dura mais que o amor, assim como as dívidas sobrevivem à ossada de um carro usado. Resultado: a explosão da inadimplência. No primeiro semestre  de 2012  os atrasos aumentaram mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado.  É a ressaca da farra dos crediários a partir de 2009, que embora tenha compensado os efeitos da crise internacional, não foi acompanhada pelo aumento dos investimentos, sem os quais a expansão sustentável da economia fica comprometida. A queda da Selic ajuda.  Mas, contribui mais para reduzir o custo da dívida pública e para alegrar os exportadores com a valorização do dólar do que para estimular o investimento. Especialmente entre aqueles de fora do círculo dos amigos do BNDES que enfrentam taxas de juros escorchantes dos Bancos em geral.

A expansão de nossa economia se apóia em mesa de três pernas: o consumo interno, o externo (exportações) e os investimentos (internos e externos). São pernas siamesas e até certo ponto interdependentes. O consumo interno pode ser estimulado baixando os preços via queda de impostos o que tem sido feito com sucesso depois de 2008. O aumento da renda dos mais pobres também ajuda. Mas a dinâmica expansionista do emprego e da renda dá sinais de fadiga.  O externo depende da expansão da Ásia, da China especialmente, da Europa, e dos Estados Unidos. Nesse quesito as coisas não vão bem. Os investimentos internos públicos estão em queda, e os privados dependem de financiamentos a juros civilizados: apesar do banho de loja que os bancos deram nas suas taxas premidos pelo “exemplo” do BB e da CEF, estas ainda são estratosféricas. Os investidores externos estão escaldados com a crise que se agrava na Europa – a Espanha cambaleia…- e procuram um lugar seguro para esperar a tempestade passar. No jargão financeiro dos anos 60, “vão dançar com a irmã…” e, o melhor salão para isso (ainda) são os títulos do Tesouro americano.

O investimento que leva o pomposo nome de formação bruta de capital fixo cai em 2012 em relação ao ano passado. As expectativas não são boas e a maioria dos empresários vive delas. Da mesa de três pernas, duas estão mancando: o investimento e as vendas externas (exportações). O Pib de 2012 será certamente menor do que o de 2011, que já foi ruim. Não seria de estranhar se ficar abaixo dos 2,0%. O crescimento tipo vôo de galinha esta de volta. Infelizmente com galinhas mais magras…

jan 12 2012

A Crise na Europa e reflexos no Brasil

Cenário: julho de 1944, Bretton Woods, New Hampshire, Estados Unidos.  Alemanha e  Japão praticamente derrotados na II Guerra Mundial,  os Aliados se reuniram nesta aprazível localidade  para reorganizar o sistema monetário e financeiro internacional. Uma das preocupações de John Maynard Keynes, presidente da Conferência  era evitar que a crise de 1929 se repetisse. Propôs a formação de uma “Clearing Union”, isto é uma espécie de Câmara de Compensação para os pagamentos internacionais. Operaria com uma moeda, (o Bankor) ,  independente de qualquer governo para evitar abusos.  Embora complexo, o sistema era engenhoso e por meio de incentivos e castigos procurava evitar os déficits crônicos de um lado – que resultavam em dívidas impagáveis – e superávits perpétuos de outro, que conduziam inevitavelmente ao desequilíbrio e à crise.

Os americanos não aceitaram a proposta e impuseram o dólar como meio de pagamento internacional. Gozaram das delícias dos ganhos de senhoriagem, mas o endividamento descomunal  resultante desaguou no abandono do sistema em 1971. O dólar sofreu forte desvalorização provocando uma crise em todo o mundo.

Hoje os déficits crônicos se esparramam e as dívidas crescem como cogumelos na floresta: pessoas, empresas e governos compraram coisas pelas quais não podiam pagar. Quando não honram suas dívidas, as empresas literalmente quebram.  As vezes não convém que desapareçam e os governos concordam em resgatá-las do inferno. Mas, é necessário pactuar com o diabo aumentando suas já pesadas dívidas. Este poder de salvamento, no entanto, tem um limite. Uma vez ultrapassado  coloca o dilema: quem salva um governo atolado em dívidas e com déficits crescentes? A área do Euro, é a mais duramente atingida. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália ou beijaram a lona ou cambaleiam.  França e Alemanha ainda de pé impõem novas regras de austeridade para evitar que a pororoca se transforme em tsunami. A terapia é conhecida: corte nas despesas, queda dos investimentos, aumento do desemprego e dos impostos. Mas, estas medidas são recessivas. Agravam a crise fiscal e a recessão pode durar mais tempo do que o necessário. As condições sociais e políticas se deterioram. O ranger de dentes pode  transformar protestos em revoltas populares. Na Europa dois subprodutos nefastos ganham força: xenofobia  (os poucos empregos para os nacionais) e regimes políticos pouco inclinados às consultas populares, isto é, autoritários para segurar o carneiro quando a tosquia ultrapassa a pele e chega até os ossos.

Os reflexos no Brasil já se fazem sentir: aumento da inadimplência,  queda nos investimentos e um crescimento em 2011 inferior a 3%. Em 2012 o PIB pode ser ainda menor, tornando evidente que a expansão de 7,5% em 2010 não era sustentável.

set 09 2011

Paradoxo da Parcimônia

Dicionário de Economia do Século XXI.

A aparente contradição existente entre poupanças excessivas que -resultam em poupanças reais mais baixas, quando a economia está operando num ponto inferior ao do pleno emprego. Nessa circunstância, o excesso de poupança permanece fora da economia, causando uma queda na renda e na produção.

Ao contrário, se as poupanças forem gastas e canalizadas para a economia, o investimento e a riqueza real aumentarão. Este princípio, desenvolvido por J.M. Keynes, foi aplicado em primeiro lugar à economia norte-americana, deprimida durante os anos 30, com seu elevado grau de desemprego.

Se, no entanto, a economia se encontrasse em pleno emprego, o excesso de poupança poderia ser benéfico: a utilização dessa poupança geraria uma demanda extra que não encontraria resposta na produção, uma vez que a economia se encontraria em pleno emprego, provocando inflação. A renda nominal aumentaria, mas o mesmo não aconteceria com a renda real.

mar 28 2011

Competir para Sobreviver

Um torrão de açúcar à direita, outro à esquerda. Neuroticamente eqüidistantes de um formigueiro, para que a escolha das formigas seja absolutamente aleatória. A primeira que chegar num deles enviará mensagens. Conhecido o caminho, as demais se encarregarão de devorá-lo. Só depois se dirigirão para o outro. Com os produtos as vezes acontece o mesmo.

A escolha inicial entre dois, muito parecidos, determina o futuro de ambos: um é disputado a tapas; o outro, embora tão bom quanto, mergulha no esquecimento. Uma vantagem inicial, obra do acaso ou da intenção, pode determinar o futuro numa luta competitiva.
Mas nem sempre isso ocorre. Fatores históricos, culturais, economicos, financeiros, militares, e a pirataria… interferem no mundo da competição e as vezes o melhor produto perde. Ou melhor, nem sempre o melhor permanece na dianteira.

Mas se tiver uma vantagem inicial, várias amarras podem ser criadas tornando-o hegemônico e sua presença no mercado, avassaladora. Por exemplo, a maioria dos teclados de máquinas de escrever ( e dos computadores) conservam até hoje a seqüência QWERTY ( cinco primeiras letras à esquerda na fileira de cima) .

Instalada nas primeiras e rudimentares máquinas tinha a missão de evitar que as letras se encavalassem para aumentar a velocidade de operação. Hoje este motivo desapareceu, e embora existam alternativas melhores quem iria propor a mudança de um “hábito” que já dura há mais de cem anos? Além disso, interesses dos que detém a patente, conspiram contra uma solução mais eficiente.

A disputa Windows x Linux reflete o mesmo processo.

Mas, a vitória numa competição comercial sempre se associou com os avanços na produtividade. E esta com a inovação e a criação de novos produtos. Tudo isso desaguando e tendo início no binômio ciência e tecnologia.

Que por sua vez são rios que se nutrem nas águas da educação.

Esta é a rainha no jogo de xadrez da competição. Os outros fatores são importantes mas sem a rainha, o jogador geralmente é obrigado a derrubar o rei. Países asiáticos, como o Japão, e a Coréia, no passado e no presente mostram que a formula funciona. Hoje a China e a Índia, dragões adormecidos, começam a soltar fumaça pelo nariz.

Com imensas populações e certas faixas de mais de 100 milhões com níveis de educação formal considerável, já disputam no mercado mundial em campos tão sofisticados como os da tecnologia da informação e a produção de softwares. Ah! Já ia me esquecendo: independencia política também ajuda e muito.

Pode ser o fiel da balança. Entre os BRIC’s ( Brasil, Rússia, Índia e China), a China é o país em melhores condições para “peitar” os Estados Unidos e a União Européia. Olho nela. E o Brasil einh?

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

fev 23 2011

O Aquecimento Global: Chayanov Revisitado

Em 1920 Alexander Chayanov economista agrário russo publicou em Moscou uma novela que, anos mais tarde, lhe custaria a cabeça. A “Viagem de meu irmão Alexei ao país da utopia camponesa” escrita sob o pseudônimo de Ivan Kremnev cometia a heresia mortal de prever a conquista do poder, em 1934, pelo Partido Camponês em lugar do Partido Proletário ( Bolchevique), e sua consagração em 1984.

Durante 50 anos os camponeses no poder convencidos dos enormes perigos que as concentrações urbanas representavam para democracia eliminariam todas as cidades de mais de 20 mil habitantes.

Os camponeses dominariam a Rússia soviética auxiliados por poderosa ferramenta: o controle do clima. Eliminava-se um dos maiores problemas da agricultura – a incerteza – e os exércitos inimigos (leia-se, os temíveis alemães) que se cuidassem, pois poderiam ser desintegrados por um furacão bem direcionado pela artilharia do Exército Vermelho ( no caso Verde…). A segunda parte agradava a Stalin. Mas a primeira era intolerável e Chayanov foi fuzilado em 1935, acusado de liderar este imaginário e fantástico partido.

Passados mais de 80 anos o controle do clima ainda está muito longe de ser alcançado, se é que algum dia isso será possível. Mas a convicção que a ação humana pode alterá-lo de maneira catastrófica e irreversível ( já pensou no degelo polar?) ganha cada vez mais corações e mentes. Inclusive o das pessoas que contribuem para o efeito estufa.

O problema são os perigosos derivativos do aquecimento global: variações climáticas que devastam a agricultura e elevam o nível do mar. A subida das águas transformaria a bela capital de Pernambuco em enorme recife de concreto. Nova Orleans, Veneza e, especialmente Amsterdam, desapareceriam antes; Cuzco talvez resistisse até o final.

A Holanda, aliás, no início da primavera de 2007, passou pelo período de seca mais prolongado dos últimos 140 anos. Lá, falta d’água só não é mais grave do que a super abundancia. Suspeita-se que os holandeses tornaram-se o povo mais alto da Europa devido à ameaça de afogamento…

A grande diferença com o passado é que agora o “Polluter Pays Principle” torna-se imperativo: queira ou não o poluidor acaba pagando, embora a proporcionalidade nem sempre se aplique. É possível que as perdas decorrentes das mudanças climáticas globais já superem os custos de evitá-las.

E, nem sei se existem métodos solventes para o exercício desta contabilidade embora o protocolo de Kyoto traga algo nessa direção com os chamados Créditos de Carbono. Mas os povos, como as pessoas, aprendem menos pelos acordos e mais pela repetição ou pelo trauma. Ou melhor, pela repetição do trauma ou pelo trauma da repetição.

O Katryna que devastou Nova Orleans, as ondas de seca e calor na Europa, o derretimento de geleiras polares, a evaporação das neves do Kilimanjaro e os pequenos furacões na costa de Santa Catarina talvez sejam as repetições visíveis de traumas que acabem por convencer, enquanto é tempo, os mais recalcitrantes. O Plano B é ensinar, inclusive os que vivem no Nepal, a nobre arte da natação.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

nov 15 2010

A Terra: uma “commodity” cobiçada?

A terra, para fins agropecuários ou urbanos vem sendo  comprada e vendida  em escala global.  Seus preços começam a aumentar diante da evidencia de sua escassez relativa. Um agravante: esta “commodity” não pode ser transferida de lugar nem produzida por quem não a possui. Países de grande população como a China ou de pouca terra arável como a Arábia Saudita, mas cheios da grana, já começam a ultrapassar suas fronteiras em busca do fator. A segurança alimentar de seus súditos os leva a adquirir terras na África, na América Latina ou na Austrália. Diretamente, ou associando-se com empresários locais, representantes destes países começam a produzir alimentos e matérias primas no ultramar. Em países como a China – e também a Índia – a situação é ainda mais complicada pois a intensa expansão urbana devora o que antes era terra dedicada a agricultura.

O Brasil, neste campo,  tem vantagens consideráveis. Sua área agricultável chega a mais de 75% de seu território. Nos últimos 40 anos mais de 120 milhões de ha. ( cerca  de 5,5 vezes a área do Estado de São Paulo) foram incorporados à  agropecuária do país tornando-o campeão de exportações das respectivas commodities. Terras baratas, novas tecnologias, livre devastação e  forte demanda externa contribuíram para isso.

Mas a manutenção desta liderança no longo prazo depende basicamente de três condições: a) que a devastação ambiental nos estados do Norte  e do Centro-Oeste seja substituída pelo desmatamento zero; b) que o desenvolvimento científico e tecnológico permita  aumentos substantivos da produtividade sem aumento de área cultivada e, c) que a infraestrutura logística e de transportes reduza os custos de armazenagem e fretes. Por exemplo, seria da maior importância  um corredor rodo-ferroviario eficaz para portos do Pacífico visando redução de fretes para os mercados asiáticos. Sabemos que exportar commodities não é a melhor alternativa. Mas, enquanto não formos capazes de competir com produtos de alta tecnologia e valor agregado, não será um pecado tirarmos proveito desta invejável vantagem competitiva.

A terra, para fins agropecuários ou urbanos vem sendo comprada e vendida em escala global. Seus preços começam a aumentar diante da evidencia de sua escassez relativa. Um agravante: esta “commodity” não pode ser transferida de lugar nem produzida por quem não a possui. Países de grande população como a China ou de pouca terra arável como a Arábia Saudita, mas cheios da grana, já começam a ultrapassar suas fronteiras em busca do fator. A segurança alimentar de seus súditos os leva a adquirir terras na África, na América Latina ou na Austrália. Diretamente, ou associando-se com empresários locais, representantes destes países começam a produzir alimentos e matérias primas no ultramar. Em países como a China – e também a Índia – a situação é ainda mais complicada pois a intensa expansão urbana devora o que antes era terra dedicada a agricultura.

O Brasil, neste campo, tem vantagens consideráveis. Sua área agricultável chega a mais de 75% de seu território. Nos últimos 40 anos mais de 120 milhões de ha. ( cerca de 5,5 vezes a área do Estado de São Paulo) foram incorporados à agropecuária do país tornando-o campeão de exportações das respectivas commodities. Terras baratas, novas tecnologias, livre devastação e forte demanda externa contribuíram para isso.

Mas a manutenção desta liderança no longo prazo depende basicamente de três condições: a) que a devastação ambiental nos estados do Norte e do Centro-Oeste seja substituída pelo desmatamento zero; b) que o desenvolvimento científico e tecnológico permita aumentos substantivos da produtividade sem aumento de área cultivada e, c) que a infraestrutura logística e de transportes reduza os custos de armazenagem e fretes. Por exemplo, seria da maior importância um corredor rodo-ferroviario eficaz para portos do Pacífico visando redução de fretes para os mercados asiáticos. Sabemos que exportar commodities não é a melhor alternativa. Mas, enquanto não formos capazes de competir com produtos de alta tecnologia e valor agregado, não será um pecado tirarmos proveito desta invejável vantagem competitiva.

out 28 2010

O Dilema do Carcereiro

Na Teoria dos Jogos a contradição entre ações individuais racionais e resultados coletivos desastrosos é ilustrada por uma conhecida alegoria denominada “O Dilema do Prisioneiro”.

No Brasil, esta alegoria poderia bem denominar-se “O Dilema do Carcereiro”.

A estória é a seguinte: um perigoso bandido é preso e deve ser mantido incomunicável. A primeira coisa que o poderoso delinqüente faz é ameaçar o carcereiro sentenciando-o à morte se não lhe for entregue um telefone celular através do qual possa prosseguir comandando sua quadrilha e cometendo crimes.

Diante da ameaça, o carcereiro pensa: se cumprir o regulamento e não entregar o celular serei recompensado. Se facilitar o aparelho, e a direção do presídio descobrir serei punido severamente. Mas se não entregar, e algum colega de outros plantões o fizer, o traficante vingativo poderá dar instruções à seus asseclas para que me matem.

A diferença entre ser punido pela direção do presídio e ser morto pelos capangas do bandido é tão grande que é mais “racional” para o carcereiro entregar o celular ao bandido, mesmo que isso signifique uma perda coletiva: êle continuará comandando seu bando e provocando crimes.

A atitude mais racional do ponto de vista individual – a preservação da vida – provoca o pior resultado para o bem estar coletivo. O carcereiro também tem a alternativa de entrar em acordo com seus companheiros para que ninguém ceda às pressões do bandido. Mas ninguém garante que diante das ameaças, o “elo mais fraco” entre os carcereiros ceda e a “frente única” se rompa, chegando o celular nas mãos do prisioneiro. Na melhor das hipóteses reinará entre os carcereiros um clima de forte desconfiança.

Em relação à reforma da Previdencia o governo parece ter feito um acordo inicial “entre carcereiros”. Mas as pressões vindas de várias áreas sensibilizaram alguns parlamentares da base governista que em conjunto com poderosos ministros aparentemente cederam causando grande inquietude nos demais.

Não podemos esquecer que as tentações são feitas para a gente cair nelas; senão não tem graça… No início de julho a linha Maginot de defesa da proposta original de reforma da Previdencia foi vazada. Mas uma operação de retorno à proposta original foi rapidamente montada com a volta do Presidente Lula ao Brasil, depois de longa estadia na Europa. É possível que o acordo entre carcereiros seja reconstruído. Mas um estrago foi feito na imagem do novo governo mostrando que não existe a desejável coesão de sua base de sustentação numa questão tão importante. A desconfiança será a tônica dos próximos lances.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

ago 01 2010

Ponzi e Felipe

Em 1949 morreu no Rio de Janeiro – num asilo – um certo Carlo Ponzi, cujo sobrenome virou conceito em economia: o efeito Ponzi. Estelionatário de grande porte aplicou vários golpes nos Estados Unidos e no Canadá nos anos 1920. Ponzi prometia pagar juros alucinantes no curto prazo para quem lhe emprestasse dinheiro que empregava em suas operações de arbitragem internacional com selos postais. O negócio era rentável, mas não o suficiente para pagar os enormes retornos prometidos. O serviço da dívida era coberto, então, com mais empréstimos de novos incautos até o estouro inexorável da bolha financeira.

Preso por 13 anos foi deportado para a Itália, vindo depois a dar com os costados no Brasil. Ao que se saiba, não aplicou nenhum golpe por aqui, mas deixou dois herdeiros: um tenente da Força Aérea, de nome Felipe – que esfolou muita gente com ardil semelhante. Comprava carros a prazo e vendia à vista por preços sedutores. Acabou mal como seu possível inspirador, mas tornou célebre o nome “felipeta”, sinônimo de papel tão micado como as promissórias que assinava.

O outro herdeiro de Ponzi é o grupo de gestores de nossa dívida interna a partir do Plano Real. O governo, “pede emprestado a João para pagar José”, ou num país onde todos deveriam fazer três refeições por dia, “vende o almoço para comprar o jantar”, e, atenção!, oferecendo juros para banqueiro nenhum colocar defeito. Surge então outro efeito, ainda não oficializado, o Tostines: ninguém sabe se a dívida interna é grande porque o déficit (causado pelos juros) é fresquinho ou se o déficit é descomunal porque os títulos da dívida vendem muito.

Para pagar os juros o governo pratica um mega-superávit primário: espreme as contas públicas em mais de 4% do PIB. Mas só consegue pagar a metade. A diferença é coberta com o aumento da dívida, como recomendaria a dupla Felipe-Ponzi. Por mês se vão cerca de 12 bilhões de reais. Grande parte do esforço de arrecadação sai pelo ralo dos juros, e os investimentos ficam a ver navios. Eis aí uma das principais razões para acelerar a queda da taxa de juros no Brasil. Está ao alcance das autoridades monetárias.

A situação internacional nunca foi tão favorável, e a taxa de cambio valorizada contribui para segurar a inflação. Manter a taxa de juros real superior a 10% ao ano é dar um tiro, não no pé, mas na virilha. Ou, se quiserem uma imagem menos sangrenta, é condenar nossa economia a um eterno vôo rastejante: ela decola, mas vai arrancando a copa das árvores que estão no entorno.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

jul 01 2010

O Futuro e seus Gargalos

Três impactos dos anos 70/80  marcaram  profundamente nossa economia. a) a  desvalorização do dólar em  1971 e a crise financeira decorrente; b) o barateamento nos transportes e nas comunicações facilitando  o deslocamento de pessoas,  mercadorias e a transmissão de informações e, c) a reintegração do mundo em um só sistema economico “de mercado” com a  dissolução das economias centralmente planejadas.

Estas três “revoluções”, se desdobraram  no

a) aumento da incerteza e  vertiginosa expansão dos movimentos financeiros especulativos;

 b) no acirramento da concorrência internacional e rápida disseminação global de qualquer crise regional, e

c) na volta à globalização com o retorno da Rússia,  da China e de todo o leste europeu como “players” no mercado mundial.

O fim das economias  socialistas permitiu, nas economias capitalistas, um abandono mais rápido das políticas previdenciarias e de bem estar e uma vitória do conceito de Estado mínimo.

O vizinho socialista onde a economia funcionava mal, mas o emprego, a saúde e a educação marchavam  razoavelmente bem deixara de existir como ponto de referência a ser compensado.

O Brasil foi pego no contra-pé nessa maré, e nossos governos não souberam enfrentar adequadamente a nova situação estratégica . A indústria  sobreviveu ( ao contrário da Argentina p.ex.) mas  herdamos pesadas  dívidas xipófogas:  a externa e a interna. Pagamos tributo aos credores – tupiniquins e tupinambás –  o que  reduz a velocidade de nosso crescimento. E as oportunidades de superação?

Existem, e não são poucas. Se os Estados Unidos e o Japão, e alguns paises da União Européia  retomarem  seu crescimento, mesmo modestamente, somados ao da China, o preço das commodities deverá manter-se num patamar favorável. Hoje somos campeões na exportação de várias delas e temos território e outras condições ecológicas para manter-nos no topo desta pirâmide.

Um razoável trato na infraestrutura de transportes terrestres ( saída rentável para o pacífico ajudaria muito) e um banho de loja em alguns portos e armazéns nos daria uma vantagem competitiva nos mercados asiáticos que poderá durar décadas. Um mega saldo comercial garantiria nossa solvência externa.

Uma atenção especial com a educação e o desenvolvimento tecnologico não faria mal à ninguém. No plano interno, a disciplina fiscal – com tropeços- começa a dar seus primeiros resultados embora isso tenha custado uma pressão tributária que lembra os tempos tristes da derrama. Estas dívidas pesadas exigirão uma saída lenta, dolorosa e perigosa: é como esvaziar uma bolha de sabão sem estourá-la.

A caminhada será longa. O excesso de cautela do governo no ambito da política economica talvez  o exima de cometer grandes erros. Mas também poderá levá-lo a não aproveitar as oportunidades de superação das dificuldades.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

mar 15 2010

Sinais de Recuperação

A economia brasileira dá sinais de franca recuperação. A crise iniciada em 2008 nos Estados Unidos  nos  jogou  na lona – em 2009 – mas o Pib se levantou bem antes da contagem dos dez segundos. A  principal razão foi a solidez do nosso sistema financeiro. Nenhum Banco importante operando aqui teve que ser socorrido, nem quebrou espalhando o vírus da insolvência.

Alguns atribuem o fato à existência de regulamentação e fiscalização do Banco Central. O controle ajudou. Mas, a saúde do sistema deveu-se ao que faz qualquer banqueiro sorrir: um cliente super seguro que paga juros estratosféricos. Este ser dadivoso como sabemos é o governo federal que necessita rolar sua crescente dívida pública.

Nossos Bancos não precisaram sair à cata da galera do sub-prime como ocorreu com os irmãos americanos. Lá, uma taxa de juros (prime) foi fixada no encontro do rodapé com  o assoalho, isto é, oscilando em torno de 1% ao ano a partir de setembro de 2001. Por que? Para reverter as expectativas sombrias depois dos atentados do 11 de setembro. Diante desta taxa irrisória, Bancos e financeiras iniciaram a temporada de caça aos que pagassem mais. Entra em cena a turma do sub-prime: clientes sem garantias, mas dispostos a encarar taxas de juros ( flutuantes) bem mais elevadas. A partir de 2005 a expansão do consumo e o temor de pressões inflacionárias levou o FED a aumentar os juros pegando os endividados no contrapé. Quebradeira geral. O socorro veio com vigorosa intervenção governamental coisa que nem os intervencionistas americanos gostam muito.

No Brasil, ao contrário, com taxas de juros estratosféricas, os balanços dos Bancos nunca foram tão bons. Mas a crise internacional derrubou os preços das exportações e as quantidades exportadas. Como sempre fazem quando perdem mercados, empresários começaram a demitir e/ou dar férias coletivas e reduzir seus planos de investimento. Não adiantaram os apelos do governo para que as empresas segurassem seus trabalhadores, pois  cada demissão ocasiona menor consumo, redução dos lucros, menos investimentos e novas demissões. O círculo vicioso da recessão.

Para quebrá-lo, o governo adotou a política correta: reduziu  preços de carros, linha branca, material de construção, cortando impostos. O consumo se manteve – em alguns casos até aumentou – as demissões foram interrompidas e o Pib não caiu tanto como em outros paises. O crescimento real do salário mínimo e as políticas  sociais como o bolsa família também ajudaram. O ano de 2009 foi um “round” perdido mas que preparou a recuperação dos investimentos e do Pib em 2010. Custo: as contas públicas se deterioraram. Bem, mas deixemos isso para depois das eleições…

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