↑ Retornar para Ficção

Crônica de uma Oportunidade (felizmente) Perdida!

“Mein Führer!  A 4ª divisão de Wenck foi destruída pelo exercito vermelho! O Bunker esta ao alcance da artilharia do Ivan e a infantaria comunista já entrou no perímetro urbano de Berlim! O General Wenck pergunta se tem autorização para recuar?

Naquela tarde de 19 de abril de 1945, véspera de seu aniversário, o Führer não reagiu com a cólera de costume. Recuar?  Esta palavra não existia! Fuzilamento para quem recuasse! Ou enfrentava o inimigo até à morte, ou era executado por um pelotão!

Não deu qualquer resposta ou orientação a seus generais e refugiou-se na sala onde se encontrava seu grande sonho: a maquete de Berlim do futuro. Mandou chamar o arquiteto e fiel escudeiro Albert Speer – nomeado  Inspetor de Obras do Reich em 1937 – responsável pelo projeto no qual o destaque  era o gigantesco   Duomo, lembrando o de Roma, mas muito maior…

Numa visita à  Mussolini – agora morto – este lhe mostrara  obras em andamento. Que inveja daquele homem incompetente, mas que realizara intervenções arquitetônicas e urbanísticas de impacto! A frase que mandara lapidar numa das colunas de um monumento, “a arquitetura era a maior de todas as artes, pois  síntese de todas as outras” Bem poderia ser sua… agora que ele desaparecera…talvez!

Informaram que não conseguiam encontrar Herr Speer. Suspeitavam que havia abandonado Berlim. O próprio Führer lembrou-se: dias antes fizera a recomendação que ele levasse a família para fora da capital e evitasse os bombardeios.

 A porta entreaberta permitu ao Führer ouvir uma voz feminina dizendo: Der Krieg ist verloren!

(A guerra esta perdida!)

Mas, não ligou. Em outros tempos custaria a vida de quem dissesse e de quem escutasse.

Um sentimento de calma o assaltou e ele convocou  seu médico, Herr…não lembrava o nome (Dr. Stumpfegger). Queria dormir. Mas, dependia de comprimidos que o oficial da SS  levava sempre à mão; sem eles nada feito.  Pediu uma dose mais forte. O som de bombas caindo nas cercanias não foi capaz de abafar as palavras do médico pedindo cautela: uma dose exagerada podia levar o Führer à morte…

Em poucos minutos adormeceu profundamente e despertou com alguém que ousara entrar em seus aposentos sem ser chamado. O visitante inesperado informava sobre a vitoria do VI Exercito da Wehrmacht comandada pelo general von Paulus que após a tomada de Stalingrado ( abrindo o caminho para os campos de petróleo de Baku) marchara sobre Moscou e a ocupara, antes que os vermelhos tivessem tempo  – como acontecera há mais de um século contra Napoleão – de tocar fogo na cidade. O líder vermelho fugira para a Sibéria e lá fora capturado pelo exercito japonês que queria mantê-lo como um troféu.

Resistiam  entregá-lo aos alemães. A irritação dos japoneses é que depois de Pearl Harbor a Alemanha não havia declarado guerra aos americanos. E estes, apesar de enviarem suprimentos para os ingleses não deslocaram suas tropas para combater na Europa. Lutavam apenas no Pacífico e embora obtendo algumas vitórias haviam perdido três porta- aviões em Midway ( perda idêntica à dos japoneses) e a guerra entrara em compasso de espera: a imensidão do oceano Pacífico não permitia que nenhum dos dois se aproximasse com força aérea do território do adversário. Agora com as principais cidades soviéticas em seu poder tentaria convencer os americanos a pressionar os ingleses por um armistício e formar uma frente contra os comunistas ( ainda restavam divisões do Exército Vermelho na Sibéria) e eliminá-los de vez da face da terra. Se fosse preciso se entender com os banqueiros judeus de Nova Iorque, até isso ele faria para destruir o comunismo! Pensando bem, com os banqueiros judeus, não! Mas, alguns banqueiros não eram judeus…os de Boston…

Na Africa, os ingleses haviam sido bloqueados em El Alamein, e a guerra marchava para uma vitória dos alemães em toda a Europa, inclusive no leste nas áreas necessárias ao ‘Lebensraum’ o espaço vital.

Lembrou-se que logo após ter sido nomeado Chanceler em 1933 reuniu-se com a cúpula do Exercito e os generais que lá estavam somente se mostraram interessados ( mesmo o recalcitrante Gen. Hammerstein comandante da Wehrmacht) quando ele pediu seu apoio para a ocupação de terras no Leste. Os generais também não gostavam dos comunistas…

Mas, a notícia que deixou Hitler eufórico foi a rendição de Leningrado e a informação que o Marechal Göering – finório, viciado em cocaína que não conseguira destruir a RAF a Força Aerea Inglesa – embarcara todas as obras do museu Hermitage para Berlim, aonde chegariam  em breve e estariam  à disposição do Führer para que escolhesse as de seu agrado. Pretendia levá-las  para Berchtsgaden. Pelo menos para isso aquele gorducho pretensioso servia!

A visão da maquete da Berlim do futuro, e o que faria com a cidade depois da vitoria na guerra o deixava em êxtase. O centro da cidade esvaziado pela extração dos judeus parasitas que lá viviam iria facilitar as reformas necessárias e sem pagar indenizações. Aliás, com o confisco dos bens daqueles ricos sanguessugas ele financiara cerca de 30% dos gastos iniciais com a guerra.

Desejou que os ingleses em vez de bombardear Hamburgo (não ousavam ir até Berlim e enfrentar os Flaks anti aereos) poderiam ter explodido o centro da Capital pelos lados da Alexander Platz  destruindo velhos edifícios poupando a ele o trabalho de demolição. Brincou com a ideia de enviar a própria Luftwaffe para fazer esta limpeza…jogando a culpa nos ingleses…

Aliás, se arrependeu de não ter dado ordens logo depois de assumir o poder para mudar o nome da rua, a Juden Strasse, onde os inimigos do povo alemão se concentravam. Na verdade, nem sabia que essa rua no centro valorizado da capital ainda conservava o nome.  Como haviam esquecido de  detalhe tão importante? Alguém de sua assessoria teria que pagar por isso! Devia haver algum judeu infiltrado na alta administração da cidade. Mas, daria ordens para que trocassem imediatamente o nome daquela rua! Em Sofia na Bulgária batizaram a principal avenida da capital com o seu nome! E sem que ninguém pedisse…! Em Varsóvia não apenas exterminara os judeus como arrasara todas as construção do Guehto que se sublevara: a  área completa tornara-se terra vacante e ele contava com o talento de Speer para reurbaniza-la nos moldes nazistas.

Agora com a guerra praticamente vencida teria condições de construir nos espaços abertos (livre de tijolos e de judeus) a  Berlim de seus sonhos.

Para salvar a pele e fugir do país muitos judeus haviam vendido  seus imóveis a preço de banana, e seria por estes preços ( “de mercado”) que o governo indenizaria os proprietários não judeus para a reformulação urbanística do centro de Berlim. Os casarões desocupados pelos parasitas enviados para os campos de concentração seriam declarados abandonados. O governo se apropriaria dos mesmos conservando-os  ou derrubando-os para abrir espaço no rumo de uma nova configuração urbanística. Paris e especialmente Roma seriam esquecidas diante da beleza e grandeza da nova capital…

Alguém lhe mencionara ( Speer? Certamente!) das reformas  de Paris promovidas por um Barão cujo próprio nome  Haussmann, de origem alemã  estava relacionado com a construção de casas!

O seu, Adolf se originava em Ad Wolf ( dos Lobos), animais cuja valentia e ferocidade o Führer admirava.

 Speer lhe dissera que o Barão tentara financiar as reformas expropriando uma quantidade de lotes maior do que a necessária  para a expansão das avenidas  vendendo as “sobras”, isto é os terrenos lindeiros valorizados pela construção das próprias avenidas.

No início deu certo: alguns cálculos mostraram que o Barão, isto é, o governo da Capital francesa financiou 20% do custo  das obras com a captura da  valorização dos terrenos expropriados e vizinhos das novas avenidas. Mas logo depois, juízes – provavelmente donos de terrenos expropriados –   mancomunados com os demais proprietários ( muitos deles judeus como o Barão Rotschild) deram ganho de causa a estes últimos e a valorização provocada pelas novas avenidas acabou sendo embolsada pelos titulares dos lotes. Foi um bom negócio para os proprietários!

Ele, o Führer, aconselhado por Speer não deixaria que isso acontecesse em Berlim. Primeiro porque devido aos expurgos realizados logo depois que  assumiu o poder em 1933, os juízes faziam o que ele mandasse e em segundo porque os proprietários judeus haviam abandonado suas residências para sempre e estavam morando – aglomerados – em outros lugares…

Speer informara que o ouro originado nos campos de concentração, que tanto servira para financiar as importações de matérias primas, pois os fornecedores exigiam pagamento antecipado em metálico quando o vencedor da guerra ainda era incerto, chegava ao fim.

Em compensação as terras confiscadas dos judeus eram muito  superiores às necessárias para a construção da nova Avenida Central e valorizadas poderiam ser vendidas aos plutocratas das finanças e da industria pesada. Os Thyssen e os Krupp haviam se tornado milionários com a produção de armamentos e chegara a hora deles devolverem parte do que haviam abocanhado: se quisessem localizar a sede de suas empresas nas proximidades das instalações do governo – e todos queriam –  teriam que comprar os terrenos ao preço que o governo considerasse “justo”…

Na verdade estas preocupações com o financiamento dos projetos que Speer fazia questão de lhe informar, o aborrecia. Desde os primórdios do partido  Nazista o dinheiro não era problema: os plutocratas, especialmente os da industria temerosos da ação dos sindicatos, sempre compareciam. Bastava acenar com o perigo comunista para que os donos das grandes empresas o procurassem oferecendo até mais recursos do que os necessários. Mas, ouvia com especial paciência os relatos de Speer, pois ele era seu ministro preferido! Sempre trazia boas noticias e bons projetos, e estava fazendo um excelente trabalho de logística e abastecimento das tropas elemento fundamental para a vitória na guerra!

Pensou, com certo alívio, que não enfrentava as mesmas dificuldades que seu colega italiano. Desejando recuperar a glória do Império Romano, Mussolini desenterrava as ruínas, mas depois de remover o que se encontrava em cima delas, não poderia substituí-las por novas construções configurando – como ele faria em Berlim – uma cidade nova que durasse tanto quanto o III Reich, ou seja mais de mil anos!

O Duce foi obrigado a implantar os novos e grandiosos projetos em terrenos distantes do centro, embora no eixo das grandes avenidas que construiu, uma deles inclusive – como em Sofia na Bulgária –  batizada com seu nome, Adolf Hitler. A admiração inicial que nutria por aquele  italiano fanfarrão – copiou  inclusive a ordem:  quem falasse com ele ao telefone que batesse os calcanhares ! – deu lugar pouco a pouco à inveja e em seguida ao desprezo.

Ademais, o Duce não compartia seu ódio pelos judeus. Aconselhado por Marinetti ( do Partido Futurista) se recusou a mandar trazer da Alemanha a Entartete Kunst ( Arte Degenerada) produzida por artistas comunistas e judeus e proscrita na Alemanha. O combate ao modernismo, ou futurismo como preferiam chamar os italianos, como arte decadente parecia não entusiasmar o Duce. Felizmente os antepassados dele Hitler, os Cavaleiros Teutonicos não haviam deixado ruínas sobre as quais  Berlim nascera. No subsolo dos edifícios e casas não havia nada a ser preservado em nome de uma grandeza imperial Teutônica. Ele poderia derrubar o que fosse necessário e reconstruir de acordo com seus planos uma cidade moderna ( esse era o modernismo que admitia) que deixaria Paris e Roma como se fossem cidades de brinquedo e tornaria Berlim o centro do mundo.

Com a vitória próxima e a celebração da paz poderia retomar o Plano de remodelação do centro da Capital  proposto por  Speer. A guerra, aliás, o obrigara a deixar para mais tarde a realização de certos projetos muito dispendiosos como a construção de um estádio olímpico com capacidade para 400.000 pessoas, projeto de  Speer. A reurbanização do centro da cidade proposto também por ele e reproduzida na maquete tinha como espinha dorsal  uma gigantesca avenida  denominada  Prachtstrasse, ou Avenida Esplendorosa  de mais de 5 km. de extensão. Dotada em sua parte inicial do Altar de Pergamo, seguia por imenso Arco do Triunfo  ( semelhante, mas muito maior que o  de  Paris) e terminava com gigantesca Basílica ( cinco vezes maior do que a de S. Pedro  em Roma); as originais da capital francesa e italiana seriam ofuscadas por tanta grandeza das construções em Berlim.

 

O mundo olharia para a capital da Alemanha como o novo centro da riqueza e do poder; Paris e Roma seriam mencionadas apenas em notas de rodapé. Quem superaria uma cúpula  gigantesca cinco vezes maior do que a de S. Pedro? Aliás, em certo momento da guerra quase deu ordens para que a Torre Eifel fosse derrubada. Visitara a torre logo depois da tomada de Paris pela Werhmacht e desejava elimina-la como referencia: não via sentido em construir uma torre cinco vezes maior… e o metal dos escombros poderia ser utilizado para construir tanques. Mas, Speer o dissuadiu: o abastecimento de minério de ferro vindo da Suécia e dos países ocupados era suficiente para garantir a produção de armas.

 

Aliás, Speer as vezes o surpreendia: no caso do estádio em Nuremberg (o Zeppelinfeld)  capaz de receber 300.000 pessoas onde Leni Reifenstahl filmou o Triumph des Willens (Triufo da Vontade) e a tribuna de honra replicava em escala maior o Altar de Pérgamo na Anatólia, foram pedidos 130 mega holofotes da defesa anti aérea para criar efeitos deslumbrantes de luz, uma vez que Speer recomendava que as filmagens fossem feitas à noite. O Marechal Göering inicialmente recusou-se a fornecê-los:  a Luftwaffe não dispunha de tantos e ficaria desguarnecida. Mas, ele Hitler interferiu pessoalmente dando ordens para que fossem instalados no estádio: criaria a impressão que as Forças Armadas estavam tão bem equipadas que se davam ao luxo de empregar importantes artefatos em finalidades não diretamente bélicas… Aqueles fachos de luz no filme de Leni contrastando tons escuros e claros, as bandeiras esvoaçando, as tochas acesas e o estádio vibrando eram das poucas cenas de cinema que o deslumbravam…

Sobre a réplica do Altar de Pergamo, Speer explicou ao Führer com detalhes que uma expedição arqueológica comandada por Carl Humann escavara na cidade grega de Pérgamo a maginfica estrutura dedicada a Zeus construída no século II a.C e enviara (pedra por pedra) para o museu Pergamon em Berlim no século XIX quando a Alemanha unificada se expandia e conquistava colônias na Africa e na Ásia. O Führer desejava ardentemente recuperar aquela época de grandeza do Império Alemão, e via o Altar como uma imensa tribuna de onde faria seus discursos, especialmente o de comemoração da vitória que se avizinhava…

                                         &&&&

Alguém tocou seu ombro com suavidade. Ele abriu os olhos e notou que Eva Braun dizia alguma coisa. Custou a entender que ela o cumprimentava pelos seus 56 anos e acrescentava que era preciso acordar e preparar-se para o  casamento e… O barulho de bombas fazendo o bunker tremer não permitiu que o Führer ouvisse  o resto da frase…