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mar 06 2013

As Eleições de 2014 e a Retomada do Crescimento

Um ministro da Fazenda tem a obrigação de ser otimista. Existem exceções, é certo. As profundas olheiras do ex-ministro Mario Henrique Simonsen (1975-1979) não tornariam crível qualquer euforia quanto ao futuro da nossa economia. Em suma, previsões ministeriais devem ser mais coloridas do que o preto e branco da realidade. Imaginem se o Ministro Guido Mantega tivesse dito no início de 2012 que o Pib daquele ano, ao invés de 4,0 seria em torno de 1,0%. Teria acertado? Creio que não, pois esta simples declaração certamente influiria negativamente no animo dos agentes e o resultado talvez fosse muito pior.

Nosso desempenho em 2012 foi muito ruim. Um Pib de 0,9% não é número que se apresente. O primeiro biênio do atual mandato presidencial, aliás, foi o pior dos últimos 20 anos. Ficamos atras de países como os Estados Unidos, e a Venezuela, e emparelhamos com a Alemanha.

O ministro Mantega atribuiu nosso fraco desempenho à crise internacional. Creio que em parte tem razão embora ele mesmo tenha afirmado anteriormente que a crise não nos afetaria. Aliás, o ministro Mantega está se especializando na técnica do “elevar a menos um”, ou seja, acontece exatamente o contrário do que ele prevê.

Na verdade, esta crise provocou também uma retração considerável na China cujo Pib de 2012 caiu abaixo dos 8,0%. E a China é o benchmark, a referencia.

O Tiranossauro asiático ( estaria voltando a ser tigre?), muito dependente de seu comércio exterior, também sofreu os efeitos da crise mundial especialmente da Europa, agora seu principal cliente ultrapassando os Estados Unidos. O efeito cascata reverberou em nossas exportações de commodities. Os preços caíram e somado à queda das exportações de manufaturados nosso superavit comercial em 2012 não alcançou 20 bilhões. Em 2007 chegou a ser superior a 45 bilhões de dólares.

Mas o problema central esta nos produtos da industria, tanto os exportados como os destinados ao mercado interno. A China, hoje nosso principal parceiro comercial, vem gozando nas ultimas décadas de vantagens competitivas no comercio internacional que formam um verdadeiro tripé: grande escala de produção, salários baixos e cambio desvalorizado. O resultado mais visível no Brasil é a invasão direta ou indireta de produtos chineses no nosso mercado interno. A indireta fica por conta da triangulação: o produto é chines, mas quem aparece exportando é o Vietnã entre outros. Além disso os diferenciais de produtividade estão sendo reduzidos inclusive em relação aos países desenvolvidos e dessa forma produtos manufaturados chineses tornam-se quase imbatíveis. Eu disse quase, pois muita coisa pode ser feita para neutralizar pelos menos duas destas vantagens, mas fica para uma outra ocasião.

No nosso caso há um agravante: o real está valorizado.

Não é de estranhar que a indústria brasileira apresente resultados negativos. Além de perdermos mercados externos, (entre 2005 e 2011 nossa participação na exportação mundial de manufaturados caiu de 0,85% para 0,73%), o mercado interno também vem sendo arrebatado pelos made in China, e até pelos Estados Unidos cujas exportações estão sendo ajudadas pela desvalorização do dólar.

As vantagens de termos um mercado interno em expansão alavancado pelo consumo e o emprego estão estimulando as importações e não necessariamente a industria nacional. A demanda do que não pode ser importado, os chamados “non tradables”, – a maior parte dos serviços – faz com que a pressão sobre a oferta (mesmo com um Pib raquítico) jogue os preços para cima e tenhamos uma inflação colada no teto da meta isto é entre 6,0 e 6,5% ao ano. Não fossem os malabarismos perigosos de segurar alguns preços (como o dos combustíveis por exemplo) e reduzir outros concedendo isenções de impostos, a inflação de 2012 teria perfurado o teto da meta de inflação.

Em 2013 o pib poderá ser salvo de outro naufrágio pelo desempenho melhor do setor agrícola. Mas, do setor industrial não poderemos esperar grande coisa. A taxa de cambio valorizada e a de juros ainda muito elevados não garantem a confiança dos investidores em projetos de médio e longo prazo. A doce maldição é que este “modelo” proporciona bons dividendos eleitorais. Se o nível de emprego e os salários se mantiverem elevados, nenhum assalariado (eleitor) “sentirá” um Pib de 0,9%. Como a corrida eleitoral de 2014 já se iniciou, a aposta do governo nesta política econômica provavelmente permanecerá. Creio que será possível segurar a situação até a Copa do Mundo e depois empurrar um pouco mais com a barriga até outubro e tentar vencer as eleições. Já vimos este filme nos períodos de FHC: o que tinha de ser feito de amargo no primeiro mandato foi deixado ( em nome da reeleição) para o segundo, com os péssimos resultados conhecidos. A caixa de ferramentas das maldades (elevação dos juros, queda do nível de emprego e renda, combate consistente à inflação, eliminação dos subsídios tributários) será aberta depois, em um eventual segundo mandato. Ou no primeiro de um outro candidato se a atual presidente não for reeleita. Em time que esta ganhando não se mexe, dizem. Mesmo que até o técnico não passe em teste de doping e o resultado do jogo possa ser invalidado no futuro.

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