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mar 01 2009

Regulação Necessária

Adam Smith acreditava que o ser humano possuía uma tendência natural a trocar e a permutar. Se duas pessoas trocassem pães, cada uma delas voltaria para casa com um deles: uma troca de equivalentes. Se trocassem idéias, a regra não se aplicaria pois cada um poderia voltar com ambas.

Embora simpático aos jogos tipo “ganha- ganha” Smith combatia as idéias de mercantilistas e fisiocratas ainda muito em voga no Continente. Ao comércio ou à agricultura contrapunha o trabalho – e sua divisão – como a fonte da riqueza de uma nação.

Esta idéia revolucionária, que desembocava na liberdade dos mercados ( dos outros) e rechaçava a intervenção estatal, não surgiu em uma fábrica de alfinetes. Navegava, empurrada por ousados capitães-de-fábrica, que arrebentavam os grilhões do feudalismo em decadência. Mais tarde, quando o capitalismo entrou em crise, estas idéias também foram atropeladas.

Keynes trouxe a lógica e a legitimidade necessárias da intervenção estatal, em nome da salvação do sistema: a água era suja, mas apagava o incêndio. Os governos capitalistas se acostumaram a gastar para criar demanda efetiva e evitar o ciclo no contra-pé. Por um tempo, deu certo.

Os países socialistas, no entanto, ainda permaneciam como alternativa: distribuíam bem o que produziam mal. Neles, a mercadoria deixava de existir: a troca era transformada em simples distribuição.

Mas surgia uma pergunta corrosiva: para que produzir valores de uso, isto é, coisas úteis, se não era necessário confirmá-las na troca? Imolava-se a qualidade dos produtos e a inovação tecnológica em nome do igualitarismo- distributivista. Na outra ponta, os produtos capitalistas tornavam-se imbatíveis e sedutores.

As telecomunicações se encarregaram de mostrar a diferença, e a idéia de economia centralmente planejada agonizou. O capitalismo estava livre para a vingança neoliberal: se o Estado asfixiava, que também fosse enforcado.

A idéia do Estado mínimo e barato deu volta ao mundo em menos de 80 dias, desembarcando em Washington, a terra do consenso. O esperanto econômico se esparramou, anunciando que o Estado tornara-se um mal desnecessário e que a lógica do mercado seria o novo fio-condutor das políticas nacionais. Porém, em estado puro, o mercado é turbulento, volátil e cruel.

E pior, imprevisível. Além disso, é incapaz de manter- se em equilíbrio. Na ânsia de expansão, engendra exclusão e enormes sobressaltos para os incluídos: uns não comem, outros não dormem. Como abrir espaço então para as questões sociais com o dragão à solta?

A resposta tentativa é conhecida: uma pitada de intervenção regulatória (e punitiva) não faz mal a ninguém, nem uma rede para amparar os excluídos.

Mas, sem exageros… E as incertezas? Bem, basta mapear o cérebro humano e identificar os neurônios responsáveis pela tomada de decisões. Com a palavra os neuroeconomistas.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br