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set 01 2008

O paradoxo de Allais e a Selic

Trocado em miúdos, o Paradoxo de Allais, fruto da crítica de Maurice Allais ao livro Game Theory and Economic Behaviour de John von Neumann e Oskar Morgenstern, aponta para o seguinte: há preferência pela segurança na vizinhança da certeza se grandes somas de dinheiro estiverem em jogo. No popular: não se troca o certo pelo duvidoso, mesmo que o risco seja irrisório.

No caso do Paradoxo de Allais, isso se traduz na chamada quebra da invariância. Invariância significa: se a alternativa A é preferível à B, e a alternativa C preferível à D, então quem preferisse A também escolheria C. Maurice Allais mostrou, em um famoso teste dos anos 1950, que nem sempre isso ocorria: na vizinhança da certeza, os agentes preferiam a segurança, mesmo diante do risco irrelevante de uma escolha alternativa.

Ou seja, preferiam A à B, mas D à C. Quando, inspirado em Allais, coloco meu gorro de economista experimental, faço o seguinte teste para estimar a propensão ao risco:

a) certeza de ganhar 5 milhões de reais;

b) 99% de probabilidade de ganhar 7 milhões e 1% de probabilidade de não ganhar nada. Embora o risco em b seja irrisório (um em cem) e o ganho considerável (40% a mais), grande parte dos presentes opta pela primeira alternativa.

Em seguida, repito várias vezes outro teste: retirar uma bolinha vermelha no meio de 99 azuis. Até agora, a vermelha não saiu. O curioso é que, mesmo depois desta demonstração, aqueles que optaram pelos 5 milhões permanecem na mesma atitude. Como agiriam nossas autoridades monetárias se fossem submetidas a esses testes? Com certeza, optariam pela turma dos 5 milhões.

Quebrariam também a invariância? Muito provavelmente: se a situação A (juros caindo lentamente) for preferível à B (juros caindo velozmente), e a situação C (o PIB crescendo “aceleradamente”) for preferível à D (o PIB crescendo lentamente), então, se A melhor que B, C deveria ser melhor do que D. Mas, no governo, a escolha acaba sendo D, e não C… E que ninguém se espante pelo fato de que, mesmo inflado no “tapetão”, o crescimento do PIB brasileiro ainda não tenha alcançado o dos países emergentes.

A preocupação real do governo (suspeita-se) é a inflação e não o PIB. Seus dirigentes parecem acreditar na Teoria do Caos – uma leve queda nos juros em Brasília provocaria furacões inflacionários na Vila do Cafufo. Na Vila, até os economistas sabem que o santo padroeiro é o câmbio, e não os juros.

Resta então o temor de não conseguir a rolagem da dívida pública. Se a taxa Selic caísse mais velozmente, os investidores financeiros abandonariam o certo (títulos públicos) pelo duvidoso (renda variável ou consumo), causando a expansão da base monetária e inflação? Não creio, pois dentro de limites ainda muito distantes, os investidores financeiros têm a mesma preferência pela segurança que seus compatriotas do Banco Central.

Artigo publicado na Revista RAE da EAESP-FGVSP www.rae.com.br

6 comentários

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  1. Eduardinho

    A situação descrita é de 2008, mas a análise de Sandroni, como sempre, é pertinente. Queria deixar meus parabéns ao autor pelo blog! Um breve comentário sobre a situação de hoje, abril/2014: o governo vive outro dilema: não pode desvalorizar o câmbio (para corrigir as distorções da balança comercial), nem pode reduzir a selic, pois, por algumas atitudes tardias diante da dinâmica econômica, enfrenta agora uma forte pressão inflacionária… como sair dessa sinuca de bico? Creio que medidas mais impopulares ficarão para depois das eleições de outubro.

  2. Paulo Sandroni

    Estimado Eduardo,

    Obrigado pelas palavras de estímulo.

    Voce tem razão quando dia que há pouca margem de manobra para mexer nas taxas de juros e de cambio.

    Em artigo mais recente ( abril 2014) “Um Tripé que deixa a mesa mancando” faço algumas considerações mais atualizadas sobre o tema.

    Psandroni

  3. Clement

    parabéns pelo ótimo artigo, Precisamos de mais informações assim como a sua.

    1. Paulo Sandroni

      Estimado Clement, obrigado pelas referencias!

  4. Juliano

    Achei esse site no google e estou gostando muito, tenho muito ainda a ler, mas até agora é muito bom mesmo. Parabéns ao autor.

    att

    Juliano

    1. Paulo Sandroni

      Estimado Juliano,

      Obrigado pelas referencias. Espero que continues encontrando materias de seu interesse no blog!

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