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jan 13 2014

O Beijo da Cascavél

Encantadores de serpentes não ousam beijar uma cascavel. Economistas militando no governo federal, ( suspeita-se que até a Presidente fez parte do time)  acham que é possível. Ou melhor, achavam. Advertidos pelo barulho crescente do chocalho do rebaixamento do rating soberano, resolveram recuar.  Talvez um pouco tarde. O fato é que causaram tantas distorções nas taxas básicas da economia, a saber, a de cambio , a de juros, a de impostos e a de salários que desorientaram os investidores tupiniquins e tupinambás.

Sem estes recursos que hoje se encontram meio empoçados,  será difícil a retomada do crescimento econômico.  Nos três anos de mandato da atual Presidente a indústria perdeu cerca de 200 mil empregos, o superávit comercial se reduziu quase a zero, a produtividade estancou, a competitividade dos exportadores desmoronou ( exceção das commodities agrícolas e metálicas) e a credibilidade externa sofreu forte abalo.

O lado positivo dessa política: o nível de emprego se manteve ou até aumentou pela expansão dos serviços (non tradables); os salários reais – especialmente os mais baixos – cresceram, o nível de consumo se expandiu e a inflação depois de um forte soluço no primeiro semestre voltou a ficar, como morcego, grudada no teto da meta graças a algumas desonerações tributárias e retenção de preços controlados pelo governo.

Sabemos que esta política é insustentável. Percebendo a perda de confiança dos investidores, o governo tenta lentamente fazer o caminho de volta  recompondo as taxas.  O cambio começa a se desvalorizar, os juros (Selic) a crescer, as desonerações tributárias a desaparecer e os salários (leia-se salário mínimo) a acusar um aumento real muito baixo. Até outubro – nas eleições que espera vencer –   o governo federal continuará empurrando lentamente com a barriga e rezando para que não ocorram as manifestações de descontentamento que marcaram 2013.

Mas, e depois? Em 2015? Quem vencer em outubro terá que solucionar um problema reconhecido por todos: como recuperar o nível dos investimentos e voltar a crescer de forma expressiva? Pelo menos duas providencias precisam ser tomadas:

a) acelerar a recomposição das quatro taxas mencionadas acima, que permita  a sobrevivência da industria, a retomada das exportações de manufaturados , o aumento da produtividade e a recuperação de um superavit comercial que não se baseie apenas na exportação de commodities, e

b) Uma adequação da dívida pública que viabilize o alongamento dos seus prazos de  vencimento, e a redução sustentável dos juros visando uma liberação do garrote do superávit primário.

Este processo requer um prazo relativamente longo (pelo menos um período presidencial) e medidas que, nos primeiros tempos, serão dolorosas: pressões inflacionárias e desemprego. Este será o custo a pagar por um espetáculo que já vimos durante o primeiro mandato de FHC: para obter um segundo,  medidas econômicas necessárias porém impopulares, não foram tomadas entre 1997 e 1998. Depois de vencidas as eleições o baú das maldades foi aberto  e o que deveria ter sido feito antes a um custo muito menor saiu por um preço exorbitante: quatro anos de estagnação.

 

2 comentários

  1. Victor Reche

    Boa tarde, Paulo Sandroni. Sou do Jornal Acontece da Universidade Mackenzie. Tenho uma pauta sobre alternativas de transporte e estacionamentos. O Sr. poderia conceder uma breve entrevista por email?

    Desde ja agradeço.

    1. Paulo Sandroni

      Estimado Victor,

      De acordo. Pode enviar as perguntas.

      PSandroni

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